Quarta-feira, Novembro 25, 2009

962 - Dia mundial da ciência



Comemorou-se ontem (24.11.)o Dia mundial da ciência...
Aqui fica o meu contributo para a reflexão.

Quantas e quantas vezes desperdiçamos bons momentos de reflexão e aprendizagem por estarmos focados no nosso umbigo e/ou focos particulares, esquecendo de lançar um olhar mais abrangente. Vem muito a propósito a metáfora da árvore e da floresta ou da análise e síntese. Os dois momentos são necessários para que o conhecimento progrida.

Agora o que não vale é estar tão focado em planificações muito certinhas e deixar passar a pergunta inteligente (ou estúpida) que poderia ser ocasião de reflexão e de fomento de uma atitue científica.

Não sei se houve maçã ou não no caso do Newton, mas sei que, de certeza houve a vontade de saber alguns porquês. Felizmente que ele não se deixou castrar pelo pensamento único, uniformizador e pelas falinhas mansas do sempre foi assim! porquê questionar....

Terça-feira, Novembro 24, 2009

961 - Existência



- Como é que é? Ficas? Eu tenho que ir andando.
Bom, antes de te deixar quero-te dizer que foi um prazer conversar contigo ao longo destes dias.

- Fica bem. Não penses que tu partes e que eu fico. Lembra-te que tu és tão real como eu- Lembra-te do meu poema...


Ah, perante esta única realidade


Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,
Perante esta única realidade terrível - a de haver uma realidade.
Perante este horrível ser que é haver ser.
Perante este abismo de existir um abismo,
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!
- Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,
Tudo o que os homens dizem,
Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles,
Se empequena!
Não, não se empequena... se transforma em outra coisa -
Numa só coisa tremenda e negra e impossível.
Uma coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino -
Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino,
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,
Aquilo que subsiste através de todas as formas,
De todas as vidas, abstratas ou concretas,
Eternas ou contingentes,
Verdadeiras ou falsas!
Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora,
Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar por que é um tudo,
Por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa!

Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,
E é com minhas idéias que tremo, com a minha consciência de mim.
Com a substância essencial do meu ser abstrato
Que sufoco de incompreensível,
Que me esmago de ultratranscendente,
E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser,
Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir!

Cárcere do Ser, não há libertação de ti?
Cárcere de pensar, não há libertação de ti?

Ah, não, nenhuma - nem morte, nem vida, nem Deus!
Nós, irmãos gêmeos do Destino em ambos existirmos,
Nós, irmãos gêmeos dos Deuses todos, de toda a espécie,
Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra,
Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite.
Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte,
Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males,
Inconsciente do mistério de todas as coisas e de todos os gestos,
Por que não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte?
Ignoro-a? Mas que é que eu não ignoro?
A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo,
São mistérios menores que a Morte? Como, se tudo é o mesmo mistério?
E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada.
Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe!
Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais,
Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência,
Porque é preciso existir para se criar tudo,
E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser,
E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses.

Álvaro de Campos

Sábado, Novembro 21, 2009

959 - É impressionante!



Às vezes penso que todos temos escrito nas estrelas o nosso destino e pouco há a fazer para alterá-lo sobretudo no que se refere a histórias de vida e injustiças que passam de geração em geração.

Há uns anos dizia que parece que há gente que atrai as desgraças e desventuras e tudo lhes acontece.

Já conheci dois casos assim. Hoje quero passar a escrito o caso da segunda.

M. foi minha aluna há uns anos e teve com a escola uma relação complicada. Histórias que a foram marcando e, quanto a mim, ela própria leu a sua história de vida como sendo de que a escola não era para ela. Concluiu o 9ºano e começou a trabalhar.

Foi mãe... tem lutado duramemente pela vida

Agora o filho foi para a escola...

Em vésperas do filho entrar para a escola a sua ansiedade era muita. M. desejava ardentemente um futuro melhor para o seu filho e nele se projecta e ambiciona para ele o sucesso que ela não teve.

Claro que, na altura, tentámos baixar as expectativas... O miúdo tem feito um primeiro ciclo com muitas histórias para contar pois é irrequieto...

Ontem partiu um vidro (já é o 2º este ano) e aleijou-se. Toda a escola soube do caso tal o aparato do acontecimento que terminou no Hospital...

(pausa para referir que o meu filho ontem nos contou a história em casa e a gente sem saber que se tratava do filho da M.)

Imagino já o futuro escolar deste miúdo...

Pergunto-me de quem será a culpa?
- Da escola, que não sabe lidar com miúdos diferentes e que se limita a reproduzir as desigualdades sociais?
- Dos pais que põem muita pressão nos miúdos?
- De ambos?
- Estará escrito nas estrelas?

Culpa apenas da escola, acho que não! pois mesmo antes do puto entrar na escola eu já imaginava no que ia dar pelas conversas da mãe.
No entanto, será que eu já sabia no que ia dar, exactamente por saber como a escola funciona?

Que coisa...
Estará escrito nas estrelas?
Coitada da M.

958 - Divagações a propósito de...



Ontem (6ª feira) foi um dia estranho e paradoxal...

Não é que foi ontem que conclui o processo de avaliação de desempenho dos meus colegas de departamento e este poderia também ter sido o dia em que o processo seria suspenso?

Dá que pensar...
Como é que um sistema tão perfeito, tão excelente, segundo o PS é, pelo próprio PS deixado cair passado apenas um mês...

Dá que pensar...
Como é que um partido que afirmava há um mês ir suspender o processo de avaliação de professores agora o mantém vivo!

Leia-se e espantemo-nos...

Programa eleitoral do PSD
Suspenderemos, porém, o actual modelo de avaliação dos professores, substituindo-o por outro que, tendo em conta os estudos já efectuados por organizações internacionais, garanta que os avaliadores sejam reconhecidos pelas suas capacidades científicas e pedagógicas, com classificações diferenciadas tendo por critério o mérito, e dispensando burocracias e formalismos inúteis no processo de avaliação.
Reveremos o Estatuto da Carreira Docente, nomeadamente no respeitante ao regime de progressão na carreira, corrigindo as injustiças do modelo vigente e abolindo a divisão, nos termos actuais, na carreira docente.



E depois espantam-se com a falta de credibilidade dos políticos e da abstenção cada vez maior...

...

Pela tarde foi tempo de mais uma imersão pela cidade (que a energia para pensar percursos ou lembra que museus gostava de ver tem andado muito por baixo)
Ontem, disfrutei, de um café na Brasileira, eu que ainda ando com o Pessoa na cabeça e mantenho com ele diálogos muito interessantes.

Ode marítima


Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,
Olho prò lado da barra, olho prò Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos detrás dos navios que estão no porto.
Há uma vaga brisa.
Mas a minh'alma está com o que vejo menos.
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.

[...]
Álvaro de Campos

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À noite, foi tempo de revisitar uma sala de cinema. O filme escolhido foi: "O solista" . Que filme belo e profundo. Que retrato da América e de Lisboa e de tantas capitais Europeias deste século!
Que lição sobre o Homem e sobre a forma como vamos vivendo em sociedade. Que contrastes?

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E assim se fechou (ou não) um ciclo que pederia ter sido muito proveitoso se o que importasse era o desenvolvimento profissional dos docentes.

Pois, isso... Não seria para isso que a escola serviria? Para educar alunos e valorizar professores de modo a torná-los cada vez melhores?

Ah! pois, esquisofrenia... pois, tenho que tomar a medicação... já voltei para o mundo imaginário...

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

956 - Soube bem



Hoje tirei um tempinho para almoçar com a ... (desculpa ... por publicar aqui a nossa conversa mas, só nós os dois é que sabemos que eras tu e eu, por isso o anonimato está garantido!)

Disseste-me uma coisa que me soube a elogio e isso fez-me muito bem! obrigado
Dizias então que eu devia ser um coordenador muito chaaaato! mas que entendias que só assim é que se podia progredir pessoal e profissionalmente e não ficar estagnado. Não havia outra forma que obrigasse alguém a sair de algum marasmo... (ou dito de outro modo, para se alargar horizontes é preciso ter alguém nos nos faça sair da cómoda situação de estar parado a ver o que acontece...)

Se assim é, ainda bem que sou chato!


Uma nêspera estava na cama
deitada, muito calada, a ver o que acontecia.

Chegou a Velha e disse:
olha uma nêspera e zás comeu-a !

É o que acontece às nêsperas
que ficam deitadas, caladas, a esperar o que acontece!

Adaptado de Mário Henrique Leiria, "Novos contos do Gin Tonic", 1974

955 - Alguém me explica como é que isto é possível?

Mas o que é que fizeram aos meus cortes salariais e à poupança com a minha carreira?


1 - Taxa de Desemprego de Outubro - Cerca de 10%

Do público
Taxa de desemprego bate recorde de 23 anos
18.11.2009 - 07h43
Por João Ramos de Almeida, Sérgio Aníbal


O número de portugueses à procura de emprego está a aumentar
A crise económica ainda se faz sentir. Segundo os números do Instituto Nacional de Estatística (INE) ontem divulgados, o número de desempregados atingiu, no terceiro trimestre deste ano, um novo máximo histórico desde 1986 (9,2 por cento no 3.º trimestre).

Só desde Junho de 2008, quando se iniciou a retracção do emprego fruto da crise económica, destruíram-se 210 mil postos de trabalho e a taxa de desemprego saltou de 7,3 para 9,8 por cento.


2 - Deficit de 2009 na casa dos 8% (confirmado hoje, se bem que a 11 de Novembro o nosso ministro das finanças ainda falasse em 5,9%!)

da Lusa
Nas últimas previsões, Bruxelas estima que o déficit da contas públicas em Portugal esteja nos 8% neste ano. Entretanto, Lisboa mantém estimativa oficial de 5,9%, embora o ministro luso das Finanças já tenha admitido que, depois de conhecer a execução orçamental de outubro, o valor deverá ser revisto.

3 - O governo vai reprivatizar o BPN. Depois de ter injectado 1800 milhões (!!!) em dinheiros públicos agora privatiza os lucros que o BPN vier a dar

Do DN
O Governo aprovou a reprivatização da totalidade do capital social do Banco Português Negócios.
A reprivatização efectuou-se através de um concurso público aberto a bancos, empresas seguradoras ou SGPS's por estas detidas.
Cinco por cento do capital social será privatizado através de uma Oferta Pública de Venda reservada aos trabalhadores.
As acções adquiridas por concurso público representam 51% do capital e ficam indisponíveis pelo prazo de cinco anos.


4 - Avaliação de professores.

Foi preciso que os professores encetassem uma luta enorme para que todos abrissem os olhos. Agora a questão é puramente política. Por que será que não abriram os olhos a tempo e levassem a paz às escolas há mais tempo. Tanto que se tinha evitado...

Do público

Parlamento discute hoje propostas da oposição
Guerra dos docentes transforma-se numa disputa semântica


5 - Governo apresenta orçamento rectificativo dizendo que o problema estava nas receitas!!

Então estoura milhões, o país está como está e o problema é das receitas?

Do jornal de negócios
O ministro das Finanças anunciou que vai apresentar ao Parlamento uma proposta de alteração orçamental devido ao agravamento do défice público. Fernando Teixeira dos Santos garante que a despesa será inferior aos gastos autorizados pela Assembleia da República. A dívida é que vai subir.

6 - Face oculta... (sem comentários)

957 - Os amantes azuis

























(para não estragar a contemplação)
"O amor é um pássaro azul no alto da madrugada"

Quarta-feira, Novembro 18, 2009

954 - Últimos desejos



Últimos desejos

Quero voar como os anjos
quero lavar os dentes com triflúor
quero o Belinho sem o Oliveira
quero cornear o duque de Kent

quero 250 de Platão bem passados
quero a destreza do okapi
quero ir ao Douro às vindimas
quero pagar com letrasset

quero vestir de linho (e do Veiga)
quero ser primeiro no Mundial
quero pudim francês com caramelo
quero ler um cabinda em verso branco

quero uma sequóia para o quarto
quero voar de Spitfire
quero esmurrar o Marcel Cerdan
quero a Maja Desnuda

quero-te de bicicleta
quero-te outra vez de bicicleta sobre as folhas
quero-te ouvir chegar de bicicleta
quero o som macio que fazia na mata a tua
bicicleta.

Fernando Assis Pacheco

Terça-feira, Novembro 17, 2009

953 - Veremos quem mantém a coerência...

Da TSF

PCP diz que é indispensável suspender actual modelo de avaliação na sexta-feira
Hoje às 18:13

O secretário-geral do PCP defendeu, esta terça-feira, que é indispensável que na sexta-feira seja votada na especialidade e em votação final global o projecto de lei do PCP que suspende o actual modelo de avaliação de desempenho dos professores.

Peça de Bárbara Baldaia com as declarações de Jerónimo de Sousa no Parlamento a propósito da votação do projecto de lei do PCP que suspende o actual modelo de avaliação dos professores

O PCP quer que o resultado da votação de sexta-feira seja conclusivo, por isso apresentou um requerimento para que o projecto de lei de suspensão da avaliação seja aprovado não só na generalidade mas também na especialidade e em votação final global.

Jerónimo de Sousa garantiu que o PCP está disponível para encontrar, com as outras bancadas parlamentares, um consenso em relação ao texto definitivo a aprovar.

«Estamos disponíveis para convergir com todos aqueles que proponham a cessação da vigência do actual modelo, mas tudo faremos para que a Assembleia da República não deixe para o Governo aquilo que pode decidir por si nem deixe para depois aquilo que pode decidir de imediato», disse o comunista.

Com o Governo e os sindicatos em negociações, Jerónimo de Sousa disse esperar que essas conversas sejam feitas sem o condicionamento de um regime que continua em vigor e que o PCP considera injusto.

«A cessação da vigência do actual regime de avaliação é um imperativo politico para garantir uma negociação que não esteja condicionada pela possibilidade de continuação do actual modelo», afirmou.

952 - Poema destinado a haver domingo



Poema destinado a haver domingo

Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor dum navio em movimento
E como ave, ficar parada a vê-la
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio de cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama de um domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa de um flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o Amor por fim tenha recreio.



Natália Correia
Poesia Completa
Publicações Dom Quixote
1999

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

951 - Volta Manuel Maria que estás perdoado





Outro soneto ao França

Rapada, amarelenta, cabeleira,
Vesgos olhos, que o chá, e o doce engoda,
Boca, que à parte esquerda se acomoda,
(Uns afirmam que fede, outros que cheira):

Japona, que da ladra andou na feira;
Ferrugento faim, que já foi moda
No tempo em que Albuquerque fez a poda
Ao soberbo Hidalcão com mão guerreira:

Ruço calção, que esporra no joelho
Meia e sapato, com que ao lodo avança,
Vindo a encontrar-se c'o esburgalhado artelho:

Jarra, com apetites de criança;
Cara com semelhança de besbelho;
Eis o bedel do Pindo, o doutor França.