Sexta-feira, Julho 25, 2008

495 - Memórias de infância: A escola

Este é um tema sobre o qual há muito queria dedicar um post.

Não raras vezes acontece estar numa conferência ou ler um livro onde é referida a boa recordação que se tem de um determinado professor que o/a marcou.

Invejo-os, pois não me parece ter tido nunca um/uma professora desse tipo.


A primeira imagem que me lembro de ter sobre a escola não a consigo datar, embora já adulto entenda que eu deveria ter uns 3 anos. Lembro-me de estar à janela do escritório do meu pai a ver os meus irmãos a ir para a escola e sentir pena, Também queria ir...

Depois, tenho imagens difusas mas sei que andei no que se chama agora jardim de infância pelos menos dois anos... Logo a primeira imagem deverá ser datada dos meus 3/4 anos, pois entrei para a 1ª classe com a idade normal (6 anos).

Não guardo (boas) memórias da 1ª e 2ª classe, excepto:

-Uma visita de estudo a uma quinta que me pareceria situada a quilómetros de distância e sei hoje que estava a pouco menos de 10 km da escola.

- Lembro-me que havia um colega que se portava mal e estava sempre de castigo e de as professoras (novas) terem dificuldades em controlar o grupo.

- De uns filmes em super 8 que se passavam no Natal (vindos do Canadá e do lonely tunes)

- De jogos de bola em que eu não era tido nem achado

- De brincar nuns canteiros que me pareciam enormes e que agora vejo que não tinham mais de 2 metros e 40 cm de inclinação

- De cantar músicas do Zeca Afonso na Escola ! Pasme-se. A Barquinha de Belém... (antes do 25 de Abril).

- De se cantar o Hino e rezar o pai nosso e de nos levantar-mos quando chegava uma autoridade (o que ainda hoje me parece bem e mantenho o hábito).

- De não ser um bom aluno e de ter algumas dificuldades de aprendizagem. Lembro-me de estar a fazer algumas actividades do que hoje se chama propedêutica da escrita (concluo que estava numa escola inovadora para a época) e que os meus colegas estavam todos invejosos pois queriam ter o mesmo tipo de tarefas do que as que tinham e lhes pareciam menos interessantes. É o que hoje se chama diferenciação...


(abre-se aqui um parentisis para dizer que a roda foi inventada há muito tempo e que as novidades de hoje apregoadas em maravilhosos normativos afinal não o são! Ah que o diga Sebastião da Gama que ensinou em pleno estado novo)


- Sei que fiz um exame para poder frequentar a 3ª classe. Devia ter algum atraso na aprendizagem...


Na 3ª e 4ª classe (1971, 72, 73)

Tive uma professora muito experiente e que já tinha sido professora de um dos meus irmãos . Não me deixou uma recordação de grande relação afectiva. Lembro-me

- De não ter o livro único

- De fazermos ditados e cópias

- De criarmos textos colectivos no quadro

- De ter aulas de Educação Musical com o maestro Alves Coelho Filho (que veio a falecer pouco tempo depois)

- De conversar com os colegas sobre a "tourada" e nos parecer que havia naquela canção algo de estranho/inovador/fora do comum...

- De o Director (Pe. Jaime - futuro pároco de Almada) me ter apanhado em cima de uma árvore e me ter dado uma "descasca" (mas não muito grande)

- De jogar Rugby com os colegas (fruto do torneio das cinco nações que passava na TV à época).

- De não ser um bom aluno o que era tema de conversa comparando-me com o meu irmão que tinha uma letra belíssima e tinha sempre muito bom nas cópias e ditados.


No Ciclo Preparatório (anos de 73/74 e 74/75) na escola pública:

- Lembro-me de ter notas brilhantes a matemática o que me deixou maravilhado (e aos meus pais também) e me leva a perceber que há atrasos que se recuperam com o amadurecimento ou mudanças externas.

- De ter uma professora de Português (a mesma de antes e depois do 25 de Abril e com as mesmas metodologias) que nos lia muitos livros (diário de Anne Frank, Em busca do pólo Sul - Com a história do Capitão Scott e do Norueguês Admusen) , As aventuras de João Sem Medo de José Gomes Ferreira, ...) que nos punha a declamar poesia (João Villaret com o País de Marinheiros de António Nobre. Levava um gira discos para a aula). Da biblioteca de Turma em que ganhei autografado por ela o livro "O sol e o menino dos pés frios" de Matilde Rosa Araújo...

Não me lembro do seu nome, nem me recordo de grande relação afectiva. Vejo agora que gostava de ler e gostava de nos passar esse gosto.

- De uma professora de História que tinha uns textos excepcionais (documentos históricos poli copiados) e de umas aulas que não eram chatas.

- De ter aulas de "recuperação" de Francês (aí as línguas) - Hoje chamamos-lhes A.P.A.

- Da professora de Matemática não ter feito uma das primeiras greves do pós 25 de Abril e de nos ter vindo pedir desculpa por isso (aí as pressões da sala de professores... Deve ter sido bonito sim...)

- De ter votado (com os meus 10/11 anos) de braço no ar para dar o meu assentimento a uma greve de alunos cujo motivo não vislumbro...

- De ter ido para a rua (a 2ªvez foi já no 9º ano) por estar, numa aula de Trabalhos Manuais, a enrolar um colega meu com lã. Sei que só vi um braço esticado a mandar-me a mim e ao meu colega para a rua...


Do 7º ao 12º ano:

- Tive dezenas de professores. Não poucos eram muito inexperientes e até deviam ainda anda na faculdade. Era difícil governar um grupo de alunos adolescentes numa época tão especial. Não os culpo. Afinal era o estado que precisava deles numa altura de um boom escolar (fim das colónias e alargamento da escolaridade até ao 9º ano)

- Muitas faltas de professores e no secundário muitas faltas minhas e dos meus colegas. Íamos em grupo conversar e passear.


Tive alguns bons professores mas que não me marcaram afectivamente por aí além. Um parentisis para falar dos professores de:

-Ciências Sociais 8ºano (prof. Albina Silva) que, na Emídio, nos deu umas aulas espectaculares (até sobre Educação sexual) e que a vim encontrar como directora da Escola Portuguesa de Maputo quando lá fui dar uma formação a convite do DEB em 2001.

- De uma professora de Geografia (competente) do 9ºano

- De uma professora de Francês do 9ºano que se preocupou comigo e me quis fazer aprender algo. Por acaso a professora de francês do 7º e do 8º também tinha alguma preocupação comigo. Eu que era tão novinho e inocente no meio de uma turma de rapazões espertalhaços...

- De um professor de Inglês (facultativo) no 8ºano que tinha pulso e nos fazia aprender inglês com singles dos Beatles... (do you want to know a secret)

- De um professor de filosofia que deveria ser bom mas nos deixou por troca de horário vindo uma novita universitária que era um desconsolo...


Na Faculdade (em Física):

- O Andrade e Silva que por ter trabalhado com o Louis de Bloglie foi contemporâneo dos grandes da física e nos dava uma aulas espectaculares de História das Ideias em Física

- Da sua esposa que respeitávamos por isso e notava-se que sabia do que nos ensinava

- Do professor de electromagnetismo (Noémio) que era um actor. Era um tipo de professor andarilho e as suas aulas eram um teatro. Nunca vi ninguém que assumisse essa postura de professor que o fizesse tão bem. A postura, o tom de voz, as inflexões... Não foi por isso que aprendi mais mas reconheci-lhe competência.









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